O Trabalho Liberta - a frase mais caustica da História


A diferença entre Faber e Labor 


"Arbeit Macht Frei" - o trabalho liberta - estes dizeres ainda respigam nos portões de Auschwitz como tinta fresca na memória do homem histórico. Pode ter sido a partir da caustica frase que a concepção de trabalho, definitivamente, se deteriorou; pois o tempo e a verdade dos horrores da opressão diluíram o conceito e deflagaram à História a exploração pelo conceito Faber (trabalho industrializado e exploratório). Entretanto, o que realmente liberta não é o trabalho, como Faber; mas, sim, como Labor contido especialmente, por sorte e resistência, na Arte, na Filosofia e na Educação.



Dá para sentir o hidróxido de sódio descer pela garganta quando pronunciamos a frase célebre dos portões do campo de concentração e imaginamos o holocausto. Ainda mais quando olhamos para duas palavras que misturadas dão o tom horroroso e explosivo - "trabalho" e "liberta". Não porque a primeira (palavra) não traz dignidade ou liberdade ao homem, entendida como invenção histórica (conceituada por A. Simões: "o trabalho não é uma essência atemporal ao homem, ele é uma invenção histórica, e como tal, pode ser transformado ou mesmo desaparecer"), mas porque a segunda palavra está para além da concepção de mecanicismo fabril. Ou seja, o trabalho que realmente liberta é aquele que promove o desenvolvimento do homem (labor) e não o que o aprisiona em atividades apenas mecânicas (faber) e de fortalecimento da riqueza de poucos. Na boca do homem histórico, portanto, o encontro entre trabalho e liberdade desce ácido.

O homem histórico, em uma concepção foucaultiana, é aquele que sabe que a História se move por séries, ciclos e discursos. Isto é, a História é feita de sujeitos históricos independentes da classe social que ocupam, dando força à microfísica do poder e aos poderes capilares (conceitos de Foucault) que constituem as verdades discursivas de nosso tempo, sejam elas oficiais ou cotidianas. Por isso o sujeito histórico lê a linha do tempo e aprende com o passado. Auschwitz é um exemplo de soda caustica no alumínio e na água do passado, oxida toda a tentativa de transformar o trabalho manual em libertador. Segundo esta linha de raciocínio, o trabalho torna-se ferramenta de manutenção do Status Quo do mundo, seja na Era do Absolutismo, das Revoluções Industriais ou do Neoliberalismo.  

Nota-se que a deterioração do conceito (trabalho) quando o salário médio de um professor no Brasil beira dois mínimos, ou o salário de um médico aproxima-se também de reservas mínimas para viver bem. A ideia de trabalho como gerador de saldos, de créditos, de bem estar é uma falha dentro do mundo moderno, já que não traz àqueles que deveriam fazer do trabalho um labor para todos. O professor não tem dinheiro para comprar livros para aperfeiçoar-se; o médico não tem tempo para elaborar-se nos estudos e viver o Labor, busca incessante pela completude do saber humano. Além disso, pesquisas mostram que os profissionais de Saúde são os mais sem qualidade de vida, ainda mais por estarem entre os que têm maior índices de suicídios e os professores entre os com maior insalubridade e periculosidade - dados do CRM e da APEOSP. Nota-se que o Labor da Educação e da Saúde ainda estão sob a tutela da frase em Auschwtiz, ou seja, causticamente o trabalho deteriora o labor humano.


Embora haja contradição, desde a frase nos portões nazistas até a concepção de trabalho como Labor ou como Faber, ainda nota-se que há uma inerência junto ao homem próxima à concepção de trabalho, pois, este, como labor é natural ao homem. É um fim em si mesmo, como a arte, como a filosofia, como a educação. Por mais que um artista contemporâneo possa lucrar com uma obra sua, não é a lucratividade que o inspira a fazer e nem o inspirou a fazer seus primeiros moldes; como não é o salário de professor que o leva a escolher a educação, mas sua resistência quase heroica de crer no humano do homem; como não é o status do jaleco branco que faz um médico buscar sempre se aperfeiçoar, mas sim o Labor como pura e utópica concepção de futuro sem resposta, sem lucro, sem função objetiva. Por exemplo, um médico pode salvar vidas com uma simples dica de higienização ou dar ouvidos a senhora que estava com pressão arterial alta - são exemplos de trabalho como labor, como 'infuncionalidade' de impossível remuneração. E esta é a essência do labor médico, educacional, filosófico e artístico.

Portanto, cabe aqui lembrar uma anedota de um pintor que fora perguntado quanto tempo levara para pintar aquele quadro em questão. E ele respondeu de forma disfuncional, laboriosa, vertical e utópica: "a vida inteira!" E esta resposta desce caustica nas mentes dos homens não-históricos, quem dera fosse apenas aos ouvidos, pois assim seria o sinal que já haveríamos aprendido com o passado que o trabalho só liberta se o motivo dele é a liberdade de todos.
 



[Fabrício Oliveira, 38, é Doutor em Linguística e Filosofia da Linguagem pela Universidade Federal de São Carlos, com a tese intitulada "Da Saúde à Qualidade de Vida - Por um Humanismo Ético bakhtiniano". (Março de 2015). De 2011-2016 foi Coordenador de Redação do Curso Poliedro São Paulo. Hoje, Professor do IFSP, colaborador do Redação e Dialogia e do Roda de Cidadania. Coordenador e Professor do Colégio Ser! - Poliedro -Sorocaba] 

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